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Quando voltar a ouvir significou voltar a viver: a história de Maria Angélica

Quando os aparelhos auditivos já não eram suficientes para acompanhar as conversas, Maria Angélica começou a se afastar de encontros, reuniões e momentos em família. Sua história mudou com o implante coclear, e com o tempo veio a redescoberta das vozes que ama, dos sons da natureza e da confiança para voltar ao trabalho. Uma jornada marcada por coragem, apoio familiar e a alegria de voltar a participar plenamente da vida.

Maria Angélica deitada utilizando processador externo de implante coclear posicionado atrás da orelha.

Presente, mas distante

Por muitos anos, Maria Angélica conviveu com a perda auditiva. Os aparelhos auditivos faziam parte da sua rotina e ajudaram durante um período importante da sua vida. Mas, com o passar do tempo, eles deixaram de ser suficientes.

Ela se lembra claramente de um momento em que percebeu que sua audição havia piorado de forma significativa. Durante uma conversa em família, todos falavam ao seu redor, mas ela já não conseguia acompanhar o que estava sendo dito. Estava ali, entre as pessoas que amava, mas não conseguia participar da conversa. Foi nesse instante que entendeu que sua perda auditiva estava avançando.

Eu via todos falando, mas não conseguia acompanhar o que diziam.

Aos poucos, situações que antes traziam alegria passaram a gerar insegurança. Reuniões familiares, encontros com amigos e ambientes movimentados tornaram-se desafios constantes. O receio de não entender as conversas ou precisar pedir que as pessoas repetissem várias vezes fez com que ela começasse a evitar esses momentos.

Estar presente, mas não conseguir participar, era muito doloroso.

Mais do que afetar a audição, a perda auditiva estava afetando sua conexão com as pessoas e sua participação na vida cotidiana.

Uma rede de apoio que nunca a deixou desistir

Se a perda auditiva trouxe momentos difíceis, ela também revelou algo valioso: a força da sua família.

Ao longo dos anos, suas filhas encontraram maneiras de tornar a comunicação mais fácil. Falavam mais devagar, procuravam manter contato visual durante as conversas e demonstravam paciência em cada interação. Acima de tudo, nunca deixaram que ela enfrentasse essa jornada sozinha.

Esse apoio foi essencial nos momentos de dúvida e quando surgiu a possibilidade de um novo caminho: o implante coclear.

A notícia foi recebida com esperança por toda a família. Depois de tantos desafios, surgia a oportunidade de iniciar um novo capítulo.

Minhas filhas sempre tiveram muita paciência e carinho comigo. Foram minha força em todos os momentos.

Montagem com três fotos de Maria Angélica ao lado de cada uma de suas três filhas em registros do cotidiano.

Um passo de coragem rumo ao desconhecido

A decisão de seguir em frente com o implante veio acompanhada de emoções que muitas pessoas conhecem bem: expectativa, ansiedade e esperança.

No dia da cirurgia, Maria Angélica entrou no centro cirúrgico com o coração acelerado. Antes do procedimento, fez uma promessa a si mesma: se tivesse a oportunidade de viver essa nova fase, procuraria compartilhar sua história para levar esperança a outras pessoas que enfrentam desafios semelhantes.

Era um momento de confiança e coragem diante de uma experiência transformadora.

O reencontro com os sons

Quando o processador foi ativado, a emoção foi grande.

Naquele dia percebi que eu estava recomeçando e que todo o esforço tinha valido a pena.

E então veio um dos momentos mais marcantes de toda a sua jornada.

Ao chegar em casa, Maria Angélica ouviu novamente a voz das filhas. A emoção transbordou em lágrimas, sorrisos e gratidão. Era um instante que ela havia esperado durante muito tempo e que permanece vivo em sua memória até hoje.

Ouvir a voz das minhas filhas novamente, meu coração transbordou de emoção.

Mas, como acontece com muitas pessoas que passam pela experiência do implante coclear, voltar a ouvir não significou compreender tudo imediatamente.

Nos primeiros dias, os sons pareciam diferentes. A audição havia retornado, mas o cérebro precisava de tempo para reaprender a interpretar aqueles estímulos. Com paciência, acompanhamento e prática diária, a percepção sonora foi se transformando. Aos poucos, as vozes ficaram mais familiares, os sons mais naturais e cada nova descoberta passou a representar uma conquista.

Com o passar dos meses, outros sons ganharam um significado especial: o barulho da chuva, os pássaros cantando, o som do mar e até mesmo o movimento das folhas ao vento. Pequenos detalhes do cotidiano que, muitas vezes, passam despercebidos, passaram a ser celebrados.

Hoje esses sons têm um significado especial e me lembram diariamente da transformação que vivi.

Maria Angélica ao lado do marido em ambiente interno, registrada durante momento compartilhado do cotidiano.

Quando ouvir significou voltar ao seu propósito

Para Maria Angélica, a maior transformação não foi apenas voltar a ouvir sons.

Foi recuperar sua autonomia e seu papel na comunidade.

Após mais de um ano afastada, ela conseguiu retornar ao trabalho como Agente Comunitária de Saúde. Esse momento representou um recomeço em diversos aspectos da sua vida.

Antes do implante, compreender pacientes em ambientes com ruído ou quando várias pessoas falavam ao mesmo tempo era uma tarefa extremamente difícil. Depois do retorno às atividades, cada visita domiciliar e cada conversa passaram a representar uma conquista pessoal.

Mais do que desempenhar suas funções, ela voltou a fazer aquilo que mais gosta: estar próxima das pessoas e ajudá-las.

Maria Angélica utiliza implante coclear enquanto faz anotações e consulta um tablet durante atividade profissional.

Uma história que continua inspirando

A jornada de Maria Angélica ainda continua. Como ela mesma explica, ouvir também é um processo de aprendizado. A cada novo som identificado, a cada conversa compreendida com mais facilidade, surgem novas conquistas.

Sua experiência também mudou a forma como acolhe os pacientes que encontra pelo caminho. Hoje, ela entende profundamente o impacto que uma dificuldade pode causar na vida de alguém e procura transmitir uma mensagem simples, mas motivadora: “Não desista. Continue acreditando.”

Aprendi que acolher é ouvir com o coração, respeitar o tempo de cada um e nunca tirar a esperança de quem está enfrentando uma dificuldade.

A promessa feita antes da cirurgia ganhou vida de maneira natural. Sua história passou a inspirar outras pessoas que convivem com a perda auditiva e buscam caminhos para recuperar sua participação na vida cotidiana.

O que significa “ouvir a vida”?

Quando questionada sobre o que significa “ouvir a vida” hoje, a resposta vem carregada de significado.

Para Maria Angélica, ouvir a vida é poder escutar a voz das pessoas que ama, perceber a beleza dos pequenos sons do dia a dia, exercer sua profissão com alegria e valorizar cada nova oportunidade que surge pelo caminho.

Sua história mostra que a audição vai muito além dos sons. Ela está presente nas conversas compartilhadas, nos vínculos que construímos, no trabalho que nos realiza e nos momentos que dão sentido à nossa trajetória.

E, às vezes, voltar a ouvir é também reencontrar um lugar no mundo.

Maria Angélica com implante coclear em atividade ao ar livre, segurando bolo e taça diante de balões.

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