em Artigo do convidado

A analista de QA mineira Isabela de Souza Coelho, de 30 anos, pode ouvir pela primeira vez Janis Joplin, Michael Jackson, Katinguelê. Também teve contato com Pink Floyd, David Bowie e Mc Rodolfinho. 

Escutar esses artistas fez parte de um teste de uso de um implante coclear [dispositivo usado por quem tem perda auditiva severa ou profunda] que ativou e que a faz “aprender a ouvir como um bebê”. Tudo foi devidamente registrado e repercutiu na rede social: em menos de 24 horas, a publicação recebeu 37 mil curtidas e 2 mil compartilhamentos. Para ela, falar sobre esse processo, tão pessoal, é um caminho para mostrar como uma surda oral.

Processo auditivo

Para ela, falar sobre esse processo, tão pessoal, é um caminho para mostrar como uma surda oralizada que ficou “muito tempo no silêncio” percebe os sons mais graves e agudos de cada tipo de música que foi indicada por amigos. Por enquanto, o ganho auditivo de Isabela permite que ela só foque no ritmo. Mas, ela conta que criou a sequência de publicações sobre cada música para também ajudar a desmistificar as vivências de uma pessoa com deficiência auditiva.

Isabela nasceu com perda de audição severa. Aos 20 anos, tentou colocar o dispositivo, mas não se adaptou. Seguiu fazendo leitura labial para manter o diálogo com as pessoas. Até que veio a pandemia, e a boca dos interlocutores ficou coberta por máscaras, o que comprometeu a qualidade da comunicação.

“Por que não colocar implante coclear?”

Coloquei o implante coclear faz 10 anos, mas não me adaptei, então, fiquei um bom tempo sem usá-lo. Na pandemia, porém, por eu ter uma grande dependência da leitura labial para entender o que as pessoas falam, fiquei prejudicada pelas máscaras. Foi quando decidi colocar o aparelho novamente, para correr atrás do tempo perdido e ter uma melhor qualidade de vida. Nasci com uma perda severa da audição, porque minha mãe teve rubéola durante a gravidez. Só que, por ter sido assintomática, não houve desconfiança após meu nascimento. Com muita insistência dela, porque instinto de mãe não falha, veio meu diagnóstico. Aos 4 anos, comecei um tratamento para oralização por meio de fonoaudiologia, do qual recebi alta aos 11. 

Desde então, sou surda oralizada. Alguns pais são contra a colocação do implante coclear e penso que isso tem a ver com uma questão cultural dentro da comunidade surda sinalizada. Muitos acreditam que se o surdo passa a ouvir, perde a identidade surda e há uma negação grande sobre isso. Alguns acreditam que devemos aceitar a deficiência. Mas, na minha opinião, não há motivo nenhum para não usar. O mesmo vale para cadeira de rodas, prótese para algum membro do corpo. 

Por que não colocar implante coclear para melhorar a vida do surdo? 

“Para mim, o maior impacto será de poder ouvir sons que são importantes, como o do interfone, do latido de um cachorro. São coisas básicas do cotidiano, mas que fazem diferença.

Na sociedade, aliás, há uma barreira enorme em relação à surdez, a começar pelo fato de que as pessoas não entendem que há uma enorme diversidade no mundo da surdez. 

Há os surdos oralizados (português), os surdos sinalizados (libras) e também os que ouvem por meio de aparelho auditivo/implante coclear. Além disso, há os surdos pré-linguais (que tem perda de audição desde o nascimento) e os pós-linguais (a perda de audição aconteceu ao longo da vida).

 

Matéria extraída UOL: https://bit.ly/3sZqdmZ

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